O Tesouro Direto é uma das portas de entrada mais seguras e acessíveis para investir, mas a dúvida de quem chega é sempre a mesma: qual título comprar? A resposta honesta é que não existe um título melhor que todos. Existe o título certo para cada objetivo. Um Tesouro Selic e um Tesouro IPCA+ resolvem problemas diferentes, e comprar o errado para o seu prazo pode gerar prejuízo na hora de resgatar. Neste guia você entende os três tipos de título, para que serve cada um, como os custos afetam o rendimento e qual costuma fazer mais sentido por objetivo, com exemplos. Para simular, use a calculadora do Tesouro Selic e a calculadora do Tesouro IPCA+.
Resposta rápida
- Tesouro Selic: reserva de emergência e curto prazo, com liquidez diária e baixa oscilação.
- Tesouro Prefixado: travar uma taxa conhecida quando você acredita que os juros vão cair.
- Tesouro IPCA+: proteger o poder de compra no longo prazo, porque paga inflação mais taxa fixa.
- Há IR regressivo (22,5% a 15%), custódia da B3 de 0,20% ao ano e marcação a mercado se vender antes do prazo.
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento.
O que é o Tesouro Direto
O Tesouro Direto é o programa do Tesouro Nacional, em parceria com a B3, que permite a qualquer pessoa física comprar títulos públicos federais pela internet, com pouco dinheiro. Comprar um título do Tesouro é, na prática, emprestar dinheiro ao governo em troca de juros. Por isso o risco de calote é o do próprio governo federal, o menor risco de crédito que existe no país. Existem três famílias de título, que se diferenciam pela forma de remuneração, e a escolha entre elas define o comportamento do seu investimento.
Antes de qualquer coisa, vale separar duas perguntas que costumam ser confundidas. A primeira é qual tipo de título comprar, que depende do seu objetivo. A segunda é qual vencimento comprar dentro daquele tipo, que depende do prazo em que você vai precisar do dinheiro. Acertar as duas é o que evita a maioria dos erros de quem começa. Se você ainda está montando a base, vale ler antes o guia de como começar a investir do zero.
Os três tipos de título
A tabela abaixo resume as três famílias. Guarde a última coluna, porque a oscilação de preço antes do vencimento é o que mais confunde iniciantes.
| Título | Como rende | Melhor para | Oscila antes do prazo? |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic | Acompanha a Selic (pós-fixado) | Reserva, curto prazo | Quase nada |
| Tesouro Prefixado | Taxa fixa definida na compra | Travar taxa, médio prazo | Sim (marcação a mercado) |
| Tesouro IPCA+ | IPCA mais uma taxa fixa | Longo prazo, aposentadoria | Sim (marcação a mercado) |
As taxas de cada título mudam todo dia, conforme o mercado. Por isso, nos exemplos abaixo, qualquer taxa citada é apenas ilustrativa. A taxa real do dia você confere na plataforma do Tesouro Direto no momento da compra.
Tesouro Selic: o título da reserva
O Tesouro Selic acompanha a taxa Selic e tem oscilação de preço muito baixa, o que o torna adequado para a reserva de emergência e para dinheiro que você pode precisar a qualquer momento. Ele tem liquidez diária: se resgatar, recebe o valor investido mais o rendimento acumulado até ali, sem sustos de preço. É o título mais conservador da plataforma. Justamente porque varia pouco, ele não é o melhor para o longo prazo, quando um IPCA+ tende a proteger mais o poder de compra. Estime o rendimento na calculadora do Tesouro Selic.
Um detalhe que favorece quem está começando: os primeiros R$ 10.000 aplicados em Tesouro Selic são isentos da taxa de custódia da B3. Para quem monta a reserva com valores até esse patamar, o custo fixo cai bastante, sobrando o IR sobre o rendimento. A comparação com a poupança e com o CDB de liquidez está no guia de reserva de emergência, onde deixar.
Tesouro Prefixado: travar uma taxa
No Tesouro Prefixado você sabe exatamente a taxa anual no momento da compra. Se comprar um papel que paga, por exemplo, 11% ao ano (número ilustrativo) e levar até o vencimento, recebe esse combinado por título, não importa o que aconteça com a Selic no meio do caminho. Ele funciona bem quando você acredita que os juros vão cair, porque trava uma taxa mais alta para o futuro. O cuidado é a marcação a mercado: se vender antes do prazo e os juros tiverem subido, pode resgatar menos do que esperava. Por isso o Prefixado combina com um objetivo de prazo definido, em que você consegue esperar até o vencimento.
Tesouro IPCA+: proteger o poder de compra
O Tesouro IPCA+ paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa fixa real, algo como IPCA mais uma taxa ao ano (o número muda todo dia). Isso garante um ganho acima da inflação se o título for mantido até o vencimento, o que faz dele um favorito para objetivos de longo prazo e aposentadoria. Como costuma ter vencimentos longos, ele também sofre marcação a mercado antes do prazo, e pode oscilar bastante no meio do caminho. Comprado e mantido até o fim, entrega o combinado; vendido no susto durante uma alta de juros, pode dar prejuízo. Para simular o ganho real, use a calculadora do Tesouro IPCA+.
Marcação a mercado: por que Prefixado e IPCA+ oscilam
A marcação a mercado é a atualização diária do preço do título conforme as taxas de juros do mercado. Funciona assim: o valor que você recebe no vencimento já está definido. Se, depois da sua compra, os juros de mercado sobem, um comprador novo consegue um título parecido pagando mais. Para o seu título antigo valer a pena para esse comprador, o preço de venda dele cai hoje. O contrário também vale: se os juros caem, o seu título fica mais atraente e o preço sobe.
Três consequências práticas ajudam a decidir:
- A marcação a mercado só importa se você vender antes do vencimento. Levando o Prefixado ou o IPCA+ até o fim, você recebe a taxa contratada.
- O Tesouro Selic quase não oscila, porque é pós-fixado e acompanha a Selic dia a dia. É por isso que ele é o título da reserva.
- Quanto mais longo o vencimento, maior a oscilação possível. Um IPCA+ com vencimento em muitos anos balança mais no meio do caminho do que um de prazo curto.
A regra que evita a maioria dos prejuízos é simples: escolha um vencimento próximo do seu objetivo, para não precisar vender no meio.
Tesouro RendA+ e Educa+: renda com data marcada
Além das três famílias clássicas, o Tesouro Direto tem dois títulos pensados para objetivos com data certa, os dois atrelados ao IPCA. O Tesouro RendA+ é voltado para a aposentadoria. Você acumula até uma data de conversão e, a partir dela, recebe 240 parcelas mensais corrigidas pela inflação, ao longo de 20 anos. O Tesouro Educa+ segue a mesma ideia para custear os estudos de alguém, com 60 parcelas mensais ao longo de 5 anos. Nos dois, o diferencial é o fluxo de pagamentos: em vez de sacar tudo de uma vez, o saldo vira uma renda mensal já protegida da inflação. Eles também sofrem marcação a mercado se resgatados antes, então funcionam melhor quando você respeita a data planejada. Para quem estuda aposentadoria privada, o guia de PGBL ou VGBL ajuda a comparar alternativas.
Com ou sem juros semestrais
Dentro do Prefixado e do IPCA+ existem versões com Juros Semestrais (o nome aparece no título). A diferença é o momento em que você recebe os juros. No título sem cupom, os juros ficam acumulando dentro do papel até o vencimento. No título com juros semestrais, o Tesouro paga uma parte dos juros a cada seis meses, direto na sua conta.
Receber cupom parece bom, mas costuma ser menos eficiente para quem está acumulando patrimônio, por dois motivos. Primeiro, cada cupom sofre IR na hora do pagamento, e nos primeiros meses a alíquota é a mais alta da tabela regressiva (22,5% ou 20%), então você paga imposto mais cedo. Segundo, o dinheiro que sai a cada semestre deixa de render dentro do título, ou seja, você perde parte do efeito dos juros compostos. Para quem quer formar um bolo no longo prazo, a versão sem cupom tende a ser mais simples e eficiente. Os títulos com juros semestrais fazem mais sentido para quem já quer uma renda periódica.
Os custos: IR regressivo e custódia da B3
Dois custos entram na conta do rendimento líquido. O primeiro é o Imposto de Renda regressivo, que incide só sobre o rendimento e cai quanto mais tempo você fica investido. O imposto é retido na fonte no resgate, no pagamento de cupom ou no vencimento, então você não precisa emitir DARF por conta própria.
| Prazo da aplicação | Alíquota de IR |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| 181 a 360 dias | 20% |
| 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15% |
Há ainda o IOF regressivo se você resgatar em menos de 30 dias, que zera a partir do 30º dia. Na prática, resgatar muito cedo é caro e deve ser evitado, exceto em emergência real. O segundo custo é a taxa de custódia da B3, de 0,20% ao ano sobre o valor investido, cobrada de forma proporcional ao tempo. Ela tem uma isenção importante: os primeiros R$ 10.000 aplicados em Tesouro Selic não pagam custódia. A maioria das corretoras não cobra taxa de administração para o Tesouro Direto, mas confirme na sua. Um exemplo ilustra o peso da custódia: em R$ 20.000 aplicados por um ano em um título que paga custódia, a taxa de 0,20% representa cerca de R$ 40 no ano. Compare o líquido com CDB e LCI/LCA no comparador de renda fixa.
Quanto custa começar, liquidez e prazos
Começar no Tesouro Direto é barato. Como dá para comprar frações de um título, com valor mínimo em torno de 1% do preço de um papel, muitas compras partem de cerca de R$ 30 a R$ 40. Isso faz do Tesouro uma das portas de entrada mais acessíveis para quem está começando. O valor mínimo varia conforme o preço de cada título, então confira na plataforma antes de comprar.
Sobre a liquidez, o Tesouro Nacional garante a recompra dos títulos em todos os dias úteis. Quando você pede o resgate, o dinheiro costuma cair na conta da corretora no dia útil seguinte, o chamado D+1. As compras e vendas com o preço do dia acontecem dentro do horário de funcionamento do mercado, nos dias úteis; fora desse horário e nos fins de semana, as ordens ficam sujeitas a preços de referência. Ou seja, você tem acesso rápido ao dinheiro, mas no Prefixado e no IPCA+ esse resgate antecipado é ao preço de mercado do dia, com a marcação a mercado embutida.
Qual título por objetivo
Juntando tudo, dá para responder qual título faz mais sentido para cada objetivo. Isso é adequação ao prazo, não recomendação de compra.
| Objetivo | Título que costuma encaixar | Por quê |
|---|---|---|
| Reserva de emergência | Tesouro Selic | Liquidez diária e quase sem oscilação |
| Meta de 2 a 5 anos | Prefixado ou IPCA+ com vencimento próximo | Trava a taxa para uma data conhecida |
| Aposentadoria, longo prazo | Tesouro IPCA+ ou RendA+ | Protege o poder de compra por muitos anos |
| Renda periódica | Títulos com juros semestrais, RendA+ ou Educa+ | Pagam ao longo do tempo, não só no fim |
A regra de ouro para Prefixado e IPCA+ é escolher um vencimento próximo do seu objetivo, para não precisar vender antes do prazo e ficar exposto à marcação a mercado. Para decidir quanto colocar em renda fixa e quanto em renda variável, veja o guia de renda fixa e renda variável.
Tesouro Selic, poupança e CDB de liquidez
Para a reserva, a comparação mais comum é entre Tesouro Selic, poupança e CDB de liquidez diária. A poupança é isenta de IR e tem liquidez, mas rende por uma regra fixa: quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, ela paga 0,5% ao mês mais a TR; quando a Selic está igual ou abaixo de 8,5%, paga 70% da Selic mais a TR. Em cenários de juros mais altos, o Tesouro Selic e um bom CDB de liquidez costumam entregar mais que a poupança mesmo depois do IR, embora isso dependa das taxas do momento. O CDB tem a garantia do FGC até o limite por instituição; o Tesouro tem a garantia do governo, sem limite de valor. A conclusão para o seu caso sai da comparação do líquido, feita no comparador de renda fixa.
Se você ainda tem dinheiro parado na poupança, o guia de como sair da poupança sem errar mostra para onde migrar com segurança e liquidez parecidas. E o guia de Tesouro Selic ou CDB aprofunda o duelo entre esses dois na reserva.
Por que o Tesouro é o investimento mais seguro do país
Quando se diz que o Tesouro Direto é o investimento mais seguro do país, o que está em jogo é o risco de crédito, ou seja, a chance de o emissor não pagar. No Tesouro, o emissor é o governo federal, e o risco de ele não honrar a dívida em reais é chamado de risco soberano. Nenhum banco privado tem crédito melhor que o do próprio governo que emite a moeda, então o Tesouro fica no topo da escala de segurança de crédito. É por isso que ele não precisa do FGC: a garantia do governo é considerada superior à cobertura do fundo, que existe para proteger o investidor de bancos.
Segurança de crédito não é a mesma coisa que ausência de oscilação. Um Tesouro IPCA+ é seguríssimo do ponto de vista de calote e, ainda assim, pode dar prejuízo para quem vende no meio do caminho durante uma alta de juros. As duas coisas convivem: risco de crédito baixíssimo e risco de preço real quando se vende antes do vencimento. Entender essa diferença é o que separa quem usa o Tesouro bem de quem se assusta com a marcação a mercado. Para o panorama de renda fixa em geral, veja o guia de CDB, CDI e renda fixa.
Erros comuns de quem começa
- Comprar IPCA+ longo para objetivo curto: um título com vencimento em muitos anos oscila bastante; usá-lo para dinheiro de 6 meses é pedir para tomar susto na marcação a mercado.
- Vender no susto: ver o preço cair e resgatar realiza um prejuízo que só existia no papel para quem levaria até o vencimento.
- Colocar a reserva em Prefixado ou IPCA+: a reserva precisa de liquidez e estabilidade, o que é a cara do Tesouro Selic, não dos que oscilam.
- Ignorar os custos: comparar títulos pela taxa bruta, sem descontar IR e custódia, leva a escolhas erradas. Compare sempre o líquido.
- Resgatar em menos de 30 dias: o IOF regressivo come boa parte do rendimento nesse período. Se for dinheiro de emergência, o Selic resolve, mas evite o resgate relâmpago se der.
Como declarar o Tesouro Direto no Imposto de Renda
Se você é obrigado a declarar, os títulos do Tesouro entram na ficha de Bens e Direitos, no grupo de aplicações de renda fixa, com o saldo em 31 de dezembro informado pela corretora. O rendimento tributado no ano, quando houve resgate, cupom ou vencimento, vai em Rendimentos Sujeitos à Tributação Exclusiva, já que o IR foi retido na fonte. A própria corretora envia um informe de rendimentos anual com esses valores prontos para transcrever. Para o quadro geral do imposto sobre aplicações, veja o guia de Imposto de Renda sobre investimentos.
Limitações deste guia
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento nem indicação de compra de um título específico. As taxas dos títulos, a Selic, o IPCA e as regras de custódia mudam com o tempo, e rentabilidade passada não garante resultado futuro. Os exemplos numéricos são ilustrativos e servem para mostrar o mecanismo, não para prever retorno. Confirme as condições na plataforma oficial do Tesouro Direto, considere o seu perfil e, se precisar, procure um profissional certificado. Veja também como validamos os cálculos.
Fontes oficiais
- Tesouro Direto: tipos de título, taxas do dia, custódia, RendA+, Educa+ e como investir.
- Banco Central do Brasil: taxa Selic definida pelo Copom e índices de referência.
- Receita Federal: tabela regressiva do Imposto de Renda e regras de declaração.
Conclusão
Não existe um título do Tesouro melhor que todos: existe o título certo para cada objetivo. Tesouro Selic para a reserva e o curto prazo, Prefixado para travar uma taxa quando você aposta na queda dos juros e IPCA+ para o longo prazo e a aposentadoria, sempre de olho no IR regressivo, na custódia da B3 e na marcação a mercado. A regra que evita quase todo prejuízo é comprar um vencimento próximo do seu objetivo, para não vender no meio do caminho. Comece pelo guia de como começar a investir do zero, compare com o guia de Tesouro Selic ou CDB, simule na calculadora do Tesouro Selic e na calculadora do Tesouro IPCA+, e conheça as demais calculadoras de investimentos. Lembre: conteúdo educativo, não é recomendação de investimento.
