Um CDB que paga 100% do CDI rende praticamente o mesmo que o Tesouro Selic antes dos custos, porque o CDI anda colado na Selic; a escolha entre os dois se decide na garantia, no custo e na liquidez. O Tesouro Selic tem garantia direta do Tesouro Nacional e taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano, isenta para os primeiros R$ 10.000 investidos no título. O CDB tem o risco de crédito do banco emissor, coberto pelo FGC até R$ 250.000 por CPF e por instituição, e a maior parte dos CDBs de liquidez diária não cobra taxa. Nos dois, o Imposto de Renda é o regressivo da Lei 11.033/2004, de 22,5% a 15% sobre o rendimento. Neste guia você compara os dois ponto a ponto e acompanha um exemplo numérico com R$ 5 mil e R$ 50 mil por um ano. Para simular o seu caso, use a calculadora do Tesouro Selic e a calculadora de CDB e CDI.
Resposta rápida
- Um CDB a 100% do CDI e sem taxa rende quase igual ao Tesouro Selic bruto, porque o CDI anda colado na Selic.
- Tesouro Selic: garantia do Tesouro Nacional (menor risco do país), com custódia da B3 de 0,20% ao ano isenta até R$ 10 mil.
- CDB: risco do banco, coberto pelo FGC até R$ 250 mil por CPF e por instituição; a maioria dos de liquidez diária não cobra taxa.
- Para a reserva, o que decide é garantia, custo e comodidade, não a última casa decimal do rendimento.
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento.
O que é o Tesouro Selic e o que é o CDB
O Tesouro Selic (nome técnico LFT) é um título público pós-fixado que acompanha a taxa Selic. Ao comprar, você empresta dinheiro ao governo federal e recebe de volta o valor corrigido pela Selic do período. É o título mais conservador do Tesouro Direto, feito para quem quer estabilidade e resgate a qualquer momento.
O CDB (Certificado de Depósito Bancário) é um título emitido por um banco. Ao comprar, você empresta dinheiro ao banco, que usa esse recurso para emprestar a outros clientes, e em troca paga um percentual do CDI, a taxa dos empréstimos entre bancos. O CDI fica quase sempre a poucos centésimos abaixo da Selic, então um CDB a 100% do CDI rende, na prática, quase o mesmo que a Selic. Para entender esse mecanismo em detalhe, veja o guia CDB, CDI e renda fixa.
Resumindo: os dois são renda fixa pós-fixada atrelada à Selic. Um tem o governo como devedor, o outro tem o banco. Essa diferença de devedor é o primeiro fio que separa as duas aplicações.
O ponto central: 100% do CDI x Tesouro Selic bruto
Aqui está o coração da comparação. Como o CDI acompanha a Selic de perto, um CDB a 100% do CDI e o Tesouro Selic rendem quase a mesma coisa antes dos custos. Se os dois rendessem exatamente o mesmo percentual bruto e não houvesse taxa alguma, a diferença de rendimento seria de arredondamento, quase nada.
O que muda o resultado final não é a rentabilidade anunciada, e sim o que cada aplicação cobra e o que cada uma garante. De um lado, o Tesouro Selic tem a taxa de custódia da B3. Do outro, o CDB não tem custódia, mas tem risco de crédito do banco. É esse jogo entre custo e garantia que decide, caso a caso, qual sobra na frente. As próximas seções destrincham cada peça.
A taxa de custódia da B3 e a isenção até R$ 10 mil
A taxa de custódia é cobrada pela B3, a bolsa brasileira, para guardar e liquidar os títulos do Tesouro Direto. Hoje ela é de 0,20% ao ano sobre o valor investido (foi reduzida de 0,25% para 0,20% em 1º de janeiro de 2022). Ela não é um imposto, é um custo de infraestrutura, e vale para todos os títulos do Tesouro.
No Tesouro Selic existe uma vantagem importante: os primeiros R$ 10.000 em estoque são isentos da taxa de custódia. A cobrança só incide sobre o que passar de R$ 10 mil investidos em Tesouro Selic. Ou seja, quem mantém até R$ 10 mil nesse título não paga custódia nenhuma, o que torna o Tesouro Selic muito competitivo justamente na faixa típica de uma reserva de emergência iniciante.
Um detalhe de operação: desde o fim de 2024, a custódia passou a ser cobrada no resgate, no vencimento ou no pagamento de juros, e não mais em uma parcela semestral fixa. Para o Tesouro Selic, que não paga cupom semestral, isso significa que a custódia costuma ser descontada só quando você resgata. A conta prática fica simples: acima de R$ 10 mil, o custo é de 0,20% ao ano sobre o excedente. Em R$ 40.000 acima da isenção, por exemplo, isso dá cerca de R$ 80 no ano.
Garantia: Tesouro Nacional x FGC
Muita gente diz que o CDB, por ter o FGC, é tão seguro quanto o Tesouro. Não é bem assim, e vale entender por quê. As duas garantias existem, mas têm naturezas diferentes.
- Tesouro Selic: garantido pelo Tesouro Nacional. É o chamado risco soberano, o menor risco de crédito do mercado brasileiro. Para o governo não honrar esse título, o cenário seria de um calote da própria dívida pública em reais, algo extremo.
- CDB: tem o risco de crédito do banco emissor, mitigado pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). O FGC cobre até R$ 250.000 por CPF e por instituição, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos, somando principal mais rendimentos.
A diferença fina é esta: o FGC é um fundo privado, formado pelas contribuições dos próprios bancos, com patrimônio finito. Ele funciona bem para quebras isoladas, mas tem limite por CPF e paga em prazo próprio (o dinheiro fica indisponível até o pagamento, o que pode levar semanas). O Tesouro não tem teto de cobertura nem espera de pagamento desse tipo. Por isso, para valores altos ou concentrados num banco só, o Tesouro Selic é, de fato, mais seguro. Para valores dentro do limite do FGC e distribuídos com cuidado, a diferença de risco na prática é pequena. Aprofunde no guia onde deixar a reserva de emergência.
CDB acima de 100% do CDI: o trade-off do risco de crédito
É comum ver CDB de liquidez diária pagando 105%, 110% ou mais do CDI. Parece dinheiro na mesa frente ao Tesouro Selic, mas há um motivo para a taxa maior. Bancos menores, com menos reconhecimento de marca, precisam pagar mais para atrair depósitos. A rentabilidade extra é, em boa parte, o preço do risco de crédito adicional.
Isso não quer dizer que esses CDBs sejam ruins. Significa que a comparação justa não é apenas o percentual do CDI, e sim o percentual do CDI somado ao risco. A regra prática que os manuais de renda fixa repetem é respeitar o limite do FGC de R$ 250 mil por instituição e não concentrar tudo em um único banco pequeno. Dentro desse cuidado, um CDB acima de 100% do CDI pode render mais que o Tesouro Selic. Fora dele, o retorno extra não compensa o risco. O Tesouro Selic, por definição, não entra nessa equação: ele é o piso de risco.
Liquidez e horário: quando o dinheiro cai na conta
Para uma reserva, a velocidade do resgate importa tanto quanto o rendimento. Nesse ponto os dois são bons, com pequenas diferenças.
- Tesouro Selic: liquidez diária, com recompra garantida pelo Tesouro em dias úteis. O pedido de resgate feito em dia útil costuma liquidar no dia útil seguinte (D+1), embora várias corretoras já ofereçam crédito no mesmo dia para o Selic.
- CDB de liquidez diária: devolve o dinheiro em D+0 ou D+1, conforme o emissor. Alguns bancos digitais creditam na hora, o que é uma comodidade real para emergência. Atenção: só os CDBs marcados como liquidez diária têm essa flexibilidade; muitos CDBs pagam apenas no vencimento.
A dica prática vale para os dois: confira o horário de corte da sua plataforma. Pedidos após o horário limite ou em fim de semana entram na fila do próximo dia útil. Para a reserva, priorize a opção cujo resgate você já testou e sabe em quantos dias o dinheiro chega.
Marcação a mercado: por que o Selic quase não oscila
Marcação a mercado é a atualização diária do preço de um título conforme os juros do mercado. Ela derruba o valor de títulos prefixados e de inflação (Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+) quando os juros sobem, o que assusta quem precisa vender antes do vencimento.
O Tesouro Selic tem baixíssima oscilação porque acompanha a taxa básica no dia a dia, sem apostar em um juro futuro fixo. O saldo cresce de forma quase reta. O CDB de liquidez diária também é estável: como é pós-fixado e resgatado pelo valor acumulado, não sofre a volatilidade dos títulos prefixados. Por isso os dois servem bem para reserva. Se você quer entender quando faz sentido usar um título prefixado ou de inflação, veja o guia qual título do Tesouro Direto comprar.
Tributação: IR regressivo e IOF nos 30 dias
A tributação é idêntica nos dois, o que simplifica a comparação. Ambos seguem a tabela de IR regressivo da renda fixa, que incide só sobre o rendimento e cai conforme o tempo de aplicação:
| Prazo da aplicação | Alíquota de IR |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15% |
Além do IR, existe o IOF, que só aparece em resgates com menos de 30 dias corridos. É uma tabela regressiva que começa em 96% do rendimento no primeiro dia e vai a 0% no trigésimo. Depois de 30 dias, IOF zero. Como esse imposto some rápido, ele quase nunca pesa em quem usa a aplicação como reserva, mas atrapalha quem resgata na primeira semana. Vale para os dois igualmente. Para ver o efeito do prazo sobre o valor final, use a calculadora de juros compostos.
Exemplo numérico: R$ 5 mil e R$ 50 mil por 1 ano
Os números abaixo são ilustrativos. Suponha uma Selic e um CDI de 10,5% ao ano (declarado só para o exemplo; confira a taxa vigente antes de decidir) e um prazo de 1 ano, que cai na faixa de 17,5% de IR (361 a 720 dias). O CDB é considerado a 100% do CDI e sem taxa; o Tesouro Selic com a custódia de 0,20% ao ano sobre o que passa de R$ 10 mil; e a poupança a 0,5% ao mês, isenta de IR. Todos os valores são o rendimento líquido no ano.
| Aplicação | R$ 5.000 (1 ano) | R$ 50.000 (1 ano) |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | cerca de R$ 433 | cerca de R$ 4.251 |
| CDB 100% do CDI (sem taxa) | cerca de R$ 433 | cerca de R$ 4.331 |
| Poupança | cerca de R$ 308 | cerca de R$ 3.084 |
Leia a tabela com atenção. Em R$ 5.000, Tesouro Selic e CDB empatam (cerca de R$ 433), porque o valor está dentro da isenção da custódia e não há taxa em nenhum dos dois. Em R$ 50.000, o CDB sem taxa fica cerca de R$ 80 na frente no ano, que é exatamente a custódia da B3 sobre os R$ 40 mil que passam da isenção. R$ 80 em R$ 50 mil é uma diferença pequena, e é justamente o ponto: entre boas opções, o rendimento é quase o mesmo. A poupança, em ambos os casos, fica bem atrás, mesmo sem pagar imposto. Refaça essas contas com a sua taxa na calculadora do Tesouro Selic e no comparador de renda fixa.
Tabela comparativa: Tesouro Selic x CDB x poupança
| Característica | Tesouro Selic | CDB (liquidez diária) | Poupança |
|---|---|---|---|
| Emissor | Governo federal | Banco | Banco |
| Garantia | Tesouro Nacional | FGC (até R$ 250 mil) | FGC (até R$ 250 mil) |
| Rentabilidade | Selic | % do CDI (perto da Selic) | 0,5% ao mês + TR (Selic > 8,5%) |
| Liquidez | Diária (D+1) | Diária (D+0 ou D+1) | Diária (aniversário mensal) |
| Imposto de Renda | Regressivo (22,5% a 15%) | Regressivo (22,5% a 15%) | Isenta |
| Taxa | Custódia B3 0,20% (isenta até R$ 10 mil) | Em geral sem taxa | Sem taxa |
| Rende bem? | Sim, perto da Selic | Sim, perto da Selic | Não, muito abaixo |
O aniversário mensal da poupança é um detalhe que atrapalha a liquidez: o rendimento só é creditado na data de aniversário do depósito, então resgatar um dia antes faz você perder o mês inteiro de juros. Tesouro Selic e CDB de liquidez diária rendem proporcionalmente todo dia útil, sem essa armadilha.
Por que a poupança perde para os dois
A poupança carrega fama de segura e simples, mas o rendimento a coloca em desvantagem clara. A regra atual é: quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais TR, o equivalente a cerca de 6,2% ao ano. Quando a Selic fica igual ou abaixo de 8,5%, ela passa a render 70% da Selic mais TR. Nos dois regimes, o retorno fica bem abaixo dos aproximadamente 100% do CDI de um bom CDB ou do Tesouro Selic.
A isenção de IR da poupança não salva a conta: como você viu no exemplo, mesmo sem imposto ela rende menos que Tesouro Selic e CDB já descontado o IR. E o argumento de segurança também não se sustenta, porque a poupança é coberta pelo mesmo FGC dos CDBs, com o mesmo limite de R$ 250 mil. Deixar a reserva na poupança é, na prática, abrir mão de rendimento sem ganhar segurança. Se é o seu caso, o guia como sair da poupança mostra o passo a passo.
Qual usar para a reserva de emergência?
A boa notícia é que os dois servem. Tesouro Selic e CDB de liquidez diária cumprem os três requisitos de uma reserva: baixo risco, liquidez rápida e rendimento próximo da Selic. A decisão entre eles é menos sobre rentabilidade e mais sobre custo, garantia e comodidade. Um roteiro simples para decidir:
- Valor até cerca de R$ 10 mil: o Tesouro Selic é muito competitivo, porque está na faixa isenta de custódia e tem risco soberano. Um CDB a 100% do CDI e sem taxa empata.
- Valor alto ou muito acima do limite do FGC: o Tesouro Selic ganha em segurança, já que não tem teto de cobertura nem espera de pagamento em caso de problema no emissor.
- Comodidade e resgate instantâneo: um CDB de liquidez diária de banco sólido, que credita em D+0, pode ser mais prático no aperto, e a maioria não cobra taxa.
- Na dúvida, divida: parte no Tesouro Selic, parte num CDB de liquidez diária, para diversificar emissor sem abrir mão de liquidez.
Antes de escolher, defina o tamanho da reserva na calculadora de reserva de emergência e leia o guia reserva de emergência: onde deixar e quanto guardar.
Erros comuns ao escolher entre os dois
- Deixar a reserva na poupança achando que é mais seguro e simples, quando ela rende menos e tem a mesma garantia do FGC dos CDBs.
- Escolher um CDB de liquidez só no vencimento pensando que é liquidez diária. Reserva precisa de resgate a qualquer momento; confira se o CDB diz liquidez diária, não só no vencimento.
- Ignorar a custódia no Tesouro em valores altos, sem lembrar que a taxa incide sobre o estoque que passa de R$ 10 mil.
- Correr atrás de um CDB de 115% do CDI sem olhar o emissor nem o limite do FGC, concentrando muito dinheiro num banco pequeno.
- Resgatar antes de 30 dias sem considerar o IOF, que come parte do rendimento na primeira semana.
Limitações deste guia
Conteúdo educativo, não é recomendação de investimento nem indicação de emissor específico. Taxas, custódia da B3, regras do FGC, a Selic e o CDI mudam ao longo do tempo, e rentabilidade passada não garante resultado futuro. Os exemplos usam taxas declaradas apenas para ilustração e podem não refletir o mercado no momento em que você lê. Simule o seu caso nas calculadoras e veja como validamos os cálculos.
Fontes oficiais
- Tesouro Direto: características do Tesouro Selic, liquidez e taxa de custódia da B3, com a isenção até R$ 10 mil.
- Fundo Garantidor de Créditos (FGC): limites e condições da garantia dos CDBs (R$ 250 mil por instituição, teto de R$ 1 milhão em quatro anos).
- Receita Federal: tabela regressiva do Imposto de Renda e do IOF na renda fixa.
- Banco Central do Brasil: regra de remuneração da poupança (0,5% ao mês mais TR quando a Selic passa de 8,5% ao ano).
Conclusão
Tesouro Selic e CDB de liquidez diária são duas opções sólidas para a reserva de emergência, e a escolha entre eles é menos sobre rentabilidade e mais sobre garantia, custo e comodidade. Um CDB a 100% do CDI e sem taxa rende quase igual ao Tesouro Selic bruto; a diferença fina fica na custódia da B3 (que some até R$ 10 mil no Selic) e no risco de crédito do banco (coberto pelo FGC até R$ 250 mil). Para valores altos, o Tesouro leva vantagem em segurança; para comodidade e resgate imediato, um bom CDB sem taxa é forte concorrente. A poupança, por render bem menos com a mesma garantia, perde para os dois. Entenda melhor a renda fixa no guia de CDB, CDI e renda fixa, simule na calculadora do Tesouro Selic e na calculadora de CDB e CDI, conheça as demais calculadoras de investimentos e veja como validamos os cálculos. Lembre: conteúdo educativo, não é recomendação de investimento.
